[Porto] Xenofobia no Metro

Saí destrambelhada pela estação do metro hj de manhã, errando todas as plataformas que eu deveria ir, rumo a tal entrevista. Nunca pego metro, e quando pego, nunca pra esse lado. Já estava atrasada, mandei uma msg avisando, o atraso não passaria de 10 minutos. Numa dessas corridas pela estação, validei o meu cartão andante e por descuido deixo cair no chão na hora de colocar no bolso da calça (é o que eu acho que tenha acontecido). Já no metro, quase na estação que eu deveria descer, passa o fiscal, o "pica" do metro. Quando vou entregar meu cartão pra ele, percebo a primeira parte do horror: perdi a capinha onde guardo cartão do cidadão, cartão do banco, cartão do metro e dos comboios. Perdi tudo naquela correria maluca. Começo a tremer de nervosa pensando nos cancelamentos, nas segundas vias.. na entrevista de emprego!! O pica então me diz que vai até a outra ponta do metro e que na volta fala comigo. Chega a estação que eu deveria descer, e eu poderia só ter saltado do metro e seguido pra minha entrevista, talvez depois de uma corridinha. Mas jura, não devo não temo, fui até ele, expliquei a situação. "Moço, eu posso me dirigir a qualquer lugar posteriormente, mas eu preciso mesmo ir numa entrevista agora. Faço a ocorrência da perda dos meus documentos, faço tudo que o senhor falar que é necessário". Ele me faz descer do metro naquela estação, que já era uma depois da que eu precisava ir.
Campanhã. Lá estou eu e outro rapaz, português. O rapaz recebeu seu auto de notícia e simplesmente foi-se embora, sem mais. Não lhe foi dirigida a palavra ao menos, não lhe foi questionado nada. Não foi feita nenhuma insinuação. Só foi dito "aprensente-se com este auto blablabla". Pensei comigo: ok, isso não passa de 5 minutos e com sorte chego 20 minutos atrasada. O fiscal agora concetra em mim, e diz: agora você precisa explicar-se a minha superior. Uma mulher portuguesa. A autoridade. "Moça, perdi meus documentos, sinto muito.." Antes de terminar ela diz: e só reparou agora? Sim, porra. 4, 5 estações depois, não foi tão tarde assim. Que tipo de insinuação é essa? Ela me olha de cima a baixo. Uma cara de deboche, um risinho querendo sair no canto da boca. Continuo a falar, digo-lhe da entrevista de emprego, da minha disponibilidade, da minha ficha limpa, dos meus planos pro futuro que dependiam daquela entrevista, faço cara de boa moça, faço cara de quem vai explodir, pergunto a ela pq o outro rapaz foi embora assim 'como se fuera'.. E ela me manda esperar sentada porque chamou a POLÍCIA.

ELA CHAMOU A POLÍCIA.

Véi.. a pinta chamou a polícia pra mim. Entrei em desespero, crise existencial, pânico. Só pensava na entrevista de emprego, só queria sair dalí. Já nem me importava com cartão cidadão, com cartão de uma conta bancária que tem 80 cents.

Precisava chegar naquela entrevista!

Tudo a partir daí foi errado. Eu dava um passo ao lado e vinha o pica me mandar sentar. Eu perguntrei a ele o que aconteceria se eu me recusasse a esperar, quais as implicações legais se eu fosse embora. E ele disse "experimenta'. Falei que não estava dizendo que ia, mas gostava de saber. De novo: "faça pra ver o que lhe acontece". Um homem 3 vezes a minha largura. Que me mandava sentar, ficar quieta, esperar, não sair da vista dele. Que me mandava ficar calma, já que ele conseguia estar calmo. Comecei a falar mais alto, desespero pegando mesmo, e aí aconteceu.

A fiscal 'superior' me olhou com uma cara de nojo e disse coisas do tipo: para de gritar nos meus ouvidos, não estou a gostar de tanto alvoroço, miúda descontrolada, só podia ser brasileira que gosta de barraco, foda-se essa gente.. até que culminou com um ALTO E CLARO: VOLTE PARA O SEU PAÍS.

A partir daí eu não consigo explicar muito bem a sequência dos fatos, chorei até minha alma virar do avesso. O pica continuava a dizer que eu deveria ter calma, eu dizia a ele que nada me obrigava a ter calma, eu não estava calma e nem ficaria. Ele me perguntou se eu estava passando por outros problemas na minha vida. FILHO.. o que eu tenho de problema na vida tiro de letra perto da sensação que eu sentia naquele momento.

A 'superior' começou a se esconder de mim quando percebia que eu queria ver seu nome no crachá, mas quando me via: RIA. RIA DA MINHA CARA. Ficava balançando a cabeça fazendo "tsc tsc". Virei minha bolsa do avesso na frente daquelas autoridades, pra quem quisesse ver. Eu não estava com a minha carteira, eu perdi as minhas coisas na estação. Vi que nada ia adiantar, então comecei a tentar ligar pra alguém e a caminhar de um lado pro outro, e lá ia o pica atrás de mim dizer pra não sair de perto, que eu NÃO PODIA ir pra longe, pra eu me sentar e ME ACALMAR, baixar minha voz. Fiquei quase 40 minutos esperando pela polícia. A polícia chegou. Eu expliquei tudo, eles não deram a mínima. Preencheram uns papeis e foram embora. Nem sequer lá foram pra registrar a perda dos meus documentos. NÃO FIZERAM NADA. Só chegaram ali, impuseram sua autoridade E FORAM EMBORA. Só foram lá pra me dizer: minha colega está a fazer seu trabalho. ORA, POIS, SEU POLÍCIA, EU NÃO SABIA QUE JÁ ERA TÃO DESCARADO ASSIM QUE UMA DAS VOSSAS FUNÇÕES ERA PERPETUAR XENOFOBIA E INTOLERÂNCIA. Achei que ainda tentavam manter isso escondido.

A superior me entregou um papel, EXATAMENTE O MESMO que ela poderia ter me entregado em 5 minutos, sem ter interferido tanto na minha vida, no meu dia pelo menos. Mas ela preferiu me ver durante 1 hora naquela estação, chorando, desesperada, pedindo pelo amor de todas as deusas pra me deixar seguir meu caminho pra entrevista. Ela riu de mim, ela foi XENÓFOBA, ela chamou a polícia pra mim e me tratou como uma criminosa, sendo que O ÚNICO CRIME NESSA HISTÓRIA É O DE XENOFOBIA COMETIDO POR ESSA MULHER. Crime! Intolerância. Ela escolheu me torturar um pouco desde o momento em que escutou o meu "oi". Ela achou que meu desespero naquela situação era por eu ser uma brasileira BARRAQUEIRA, COMO TODAS. Eu, que estou longe de ser preconceituosa como ela, sei que todos os portugueses não são como ela, e não estou colocando todos no mesmo saco, longe de mim. Só sei que todo XENÓFOBO É, ALÉM DE UM IGNORANTE, UM CRIMINOSO. E esses sim estão todos no mesmo saco.

Eu gosto de postar fotos bonitas por aqui, mas hoje queria compartilhar a cara da derrota que eu tô, e o que eu já acumulei de negativo no meu dia. Antes das 14h.

Com que cara eu vou chegar nesse lugar em que eu perdi a entrevista de emprego? "Olá, chamaram a polícia pra mim pq eu perdi o cartão do metro". E se eu me deparar com outro episódio em que não acreditarão por eu ser brasileira? O que é pior: eles acharem que eu tentei passar a perna no metro, eles acharem que é uma desculpa esfarrapada, eles me descartarem na hora por terem chamado a polícia pra mim? Obrigada hoje já estou ferida o suficiente pra aguentar outra rodada.
Nem se quer tenho uma ocorrência da perda dos meus documentos. Achei que a polícia tinha ido lá pra que eu pudesse fazer isso. Nada. Foram só pra me lembrar que eu não estou no meu país. Foram só pq a 'superior' não gostou da minha maneira de ser, de se comportar, achou que eu não deveria ficar nervosa e, se fiquei, é pq sou brasileira. E QUE DEVO VOLTAR PRO MEU PAÍS. Gente. Sou cidadã portuguesa e garanto: isso não garante nada. Um papel que te qualifique 'portuguesa' não garante nada.

A única coisa que garante que esses episódios aconteçam menos é uma educação de base e punição pra quem o fez. Se alguém souber como posso ter ajuda judicial nesse caso, eu agradeço. Tenho o nome e identificação dessa criminosa.

Hoje acordei cedo esperando um longo dia pela frente, cheio de novos ares e planos. Mas em menos de uma hora acordada, tive uma dura amostra do 'mais do mesmo', do 'nada de novo no front', que assola e se agrava pelo mundo todo: XENOFOBIA.

Fonte

Comentários

Devia ter dito que era uma

Devia ter dito que era uma turista de visita à cidade e que tinha perdido tudo. Ia ver como a tratavam de outra forma. Essa da entrevista de emprego estragou tudo. Eles adoram turistas mas detestam emigrantes.

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