Da alucinação à insolação num 10 de Junho apátrida

Desperto-me às 9 da manhã no final de um afterparty num clube junto à praia. O despertar foi da alucinação: percebi que por cinco horas dançara intragável música eletrônica (perdoem-me a redundância). Eu não sabia muito bem como havia ido parar a um ambiente tipicamente abominável ao meu feitio. De calções, chinelos e a linda, porém subversiva e tresandada camisa de Belchior (que eu não tiro há uma semana), nem sei como me deixaram entrar naquele antro de elegância parola.

Na rua, de algum lado, ecoava junto a disparos de canhões um uníssono "às armas, às armas", direto do fundo de muitas gargantas. "Terei viajado no tempo e voltado ao Estado Novo?", pensei, enquanto concluía: "que comovente" (leia-se "que patético").

"Praia, praia", foi o desejo que me invadiu. E lá fomos, esfomeados, para molhar os pés na corrente gelada do Mar do Norte e adormecer na areia junto às ondas, ávidos de música e comida.

Com a avenida da praia cortada pelas celebrações patrioteiras, derretemos à espera dos ônibus que não passavam. De paragem em paragem, feito peregrinos pela marginal do Douro, avançávamos sofrivelmente enquanto as esperanças de que um mísero ônibus passasse evaporavam sob o sol ardente.

Seis horas de caminhada com alguns cochilos pelo caminho, tendo de aturar a provocação dos ônibus de city tours, os únicos a passar, enchendo-nos de raiva e muita dor nas pernas.

Finalmente alcançamos o metro em São Bento, uns bons dez quilômetros depois, perfeitamente assados, tendo trocado a alucinação pela insolação. Uma fila gigantesca de turistas lerdos me fez desistir de tentar comprar bilhete na única bilheteira de uma estação central. Patético, como quase tudo no Metro do Porto.

Fui a pé à Trindade para me esquivar da lerdeza daquelas carcaças arregimentadas. Mas nos Aliados perfilava maquinaria do exército numa exibição de fetiche militarista não menos patética que o metro.

Mas a estação da Trindade estava igualmente tomada pela gentrificação. As pessoas, ensardinhadas, empacotavam-se em vagões superlotados rumo ao festival NOS Primavera Sound. Eu só queria ir para casa! Quase já implorava por isso e comecei a imaginar um banho frio e uma cama como as duas coisas mais maravilhosas da existência humana.

Na primeira tentativa, minha consciência me obrigou a deixar uns três velhinhos entrarem no metro à minha frente e fiquei sem espaço até a porta do vagão se fechar. Na segunda, distraí-me com a camisa de Godspeed You! Black Emperor que um rapaz brasileiro ostentava, provavelmente rumando ao festival. Fitei-lhe, cobiçando sua ostentação. Ele fitou-me enquanto cochichava com sua acompanhante. Provavelmente teria pensado em trocar sua camisa com a minha. Nunca! Mas acabei por me empacotar no metro e passei o percurso todo olhando para aquela camisa enquanto uma corrosiva dúvida acometia-se-me: "não me digam que GY!BE vai tocar nesse festival de merda, no quintal de casa, e eu não sei de nada!"

Cheguei a casa às 17h, na cor de um camarão, tendo prometido sair com amigos à noite. O banho frio deixou de ser uma coisa maravilhosa e saltei essa parte para cair imediatamente nos braços de Morfeu, mas desejando Morfina.

Acordei agora pela manhã, não tendo ouvido as tantas ligações e mensagens. Perdoem-me, mas o meu caminho se constrói inadvertidamente e eu não tenho qualquer controle sobre ele; percorro-o com a humildade de quem já se conformou com a inefabilidade da vida.

A boa notícia é que GY!BE não tocou no festival.

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