"Tanto se tem falado de terrorismo (cruel e desumano) e, paradoxalmente, os piores ataques continuam a ser aqueles praticados por nós próprios."

"Tanto se tem falado de terrorismo (cruel e desumano) e, paradoxalmente, os piores ataques continuam a ser aqueles praticados por nós próprios. Não por incúria, mas em nome do capital". Disse isso a propósito do incêndio na torre Grenfell em Londres. Mas não poderemos dizer o mesmo para os incêndios que assolam sazonalmente o território português?

As causas não são as trovoadas secas. A verdadeira causa é o estado a que foi votado todo um território assente na monocultura intensiva do eucalipto. Um território extenso, reduzido, espoliado à sua condição de área de lucro e área de exploração para servir o calculismo estatístico das economias e das exportações nacionais. A "monocultura" é um efeito próprio do capitalismo, a exploração intensiva de um território até ao esgotamento e à destruição total dos seus recursos (seja a cidade turística, seja a floresta de eucaliptos). É o seu modus operandi. É uma estratégia a curto prazo, é uma estratégia de colonização, mobilizada unicamente pelo lucro e rentabilidade rápidas e, claro, privadas, sem qualquer salvaguarda pelo bem comum.
No meio disto tudo, o Estado cumpre o seu papel eterno de salvaguarda da "propriedade" e a tarefa paradoxal de combater a tragédia que ele próprio fabrica, ano após ano.

É por isso que na questão dos incêndios se expressa em grau máximo todo o cinismo e impasse da política actual com a periódica lamentação das catástrofes e das condições naturais, com a escolha dos heróis do momento, tudo isto pleno de reptos de unidade nacional. O fogo foi ritualizado como fenómeno nacional. E é isso que o torna tão cinicamente tolerável.

«E, no final, «o tempo dos incêndios» serve o seu duplo propósito: normaliza a catástrofe e renova o ciclo de extracção. Ano após ano. Consumação e celebração. Fogo e esquecimento.»

Por Pedro Levi Bismarck
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