“Os polícias disseram que nós, africanos, temos de morrer”

Desde quinta-feira que a Cova da Moura tem estado nas notícias. Seis jovens detidos pelos agentes da esquadra da PSP de Alfragide acusam a polícia de tortura e racismo. Pontapés, tiros, e violência verbal fazem parte da acusação. “Vocês têm sorte que a lei não permite, senão seriam todos executados”, dizem ter ouvido. Ou: “Deviam alistar-se no Estado Islâmico”. PSP e IGAI estão a investigar.

Os habitantes da Cova da Moura estão habituados a ver polícia neste bairro da Amadora. Volta e meia aparecem para fazer rusgas. Na quinta-feira, 5 de Fevereiro, “por volta do meio-dia”, Bruno Lopes estava na Rua do Moinho quando “pelo menos seis” agentes da polícia abordaram “duas pessoas”.

Um dos polícias começa a rir para Bruno, que vira a cara. Bruno conversa com o primo e ri-se com ele. O polícia diz-lhe: ‘Estás-te a rir, olha que podes perder o sorriso”. O primo sugere que entrem no café, e em crioulo, Bruno diz que não tem de sair de onde está. O polícia quer saber do que falam, e encosta-o à parede. Vêm mais dois agentes que o agridem. Bruno não ofereceu resistência alguma. Isto é versão de Bruno Lopes, 24 anos.
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Da varanda de sua casa, Jailza Sousa, 29 anos, cabo-verdiana voluntária no Moinho da Juventude, vê-o “a levar chapadas”, e Bruno sem reagir, “nada que desse origem àquilo tudo”. Bruno ouviu uma voz feminina a gritar aos polícias: “Parem”. De nada serviu.

– Começaram a bater até fazer sangue, lembra Jailza.

Na rua em baixo, em casa, Celso Lopes ouve um, dois, três, quatro, cinco disparos.

– O policial apontou para mim e disparou uma vez, tornou a carregar e a disparar, diz Jailza, com os cartuchos das balas de borracha na mão. O meu filho viu, está traumatizado.

Bruno Lopes é algemado e levado para a esquadra de Alfragide, a cerca de um quilómetro dali.

– Bateram-me com o cassetete, davam pontapés, conta. – Diziam-me para me candidatar ao Estado Islâmico. Chamavam pretos, macacos, que iam exterminar a nossa raça.

Quatro dias depois, na segunda-feira, junto ao café ainda se vêem umas pingas de sangue. Jailza tem duas marcas das balas de borracha com que foi atingida: uma na nádega, outra no peito. Mostra-nos as sequelas, envergonhada, numa das salas de leitura da biblioteca do Moinho.

Bruno seria libertado na sexta-feira. Foi acusado na altura de ter lançado uma pedra e partido um vidro da carrinha da polícia. Nega tudo. “Se estava a ser revistado, como é que podia ter lançado uma pedra?”

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